quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Quando eu chorei Colares


Quando eu chorei Colares, já estava deitada, contigo ao meu lado.
Estive por lá ao fim de algum...muito tempo. Um final de férias magnífico em que me permiti olhar de novo para a rua em que muito brinquei, olhar o espaço em que me movi, voltar ao tempo em que cresci feliz, no tempo quente e na humidade fria da serra de Sintra e que envolve Colares. Estive por ali pouco tempo, o suficiente para notar todas as diferenças, poucas, ainda que evidentes. Olhei o portão por onde tantas vezes entrei e saí a pé ou de bicicleta, ora com risos e gargalhadas, ora com lágrimas e tristezas infantis das que parecem infinitas quando sentidas, mas tão efémeras quanto o que as originou.
E a minha tia Helena, a minha cuidadora, naquele instante, em que o meu olhar fixou o portão da casa, que já não me pertence, mas que será sempre minha, surgiu na minha cabeça, no mesmo instante em que o pensamento não pára e promove a associação triste de que, a ausência da minha casa com a vida que tinha durante a minha infância, é exactamente igual à ausência que tenho da minha tia na minha vida com a vida que ela própria tinha. Invadida que fui por tanta lembrança, incluindo a do dia em que despejei junto com a mana, o espólio da casa, e em seguida me convenci que fazia o que tinha de ser feito, da melhor forma que naquela altura podia fazer, por não reunir condições para mais, voltei ao carro e enquanto tudo isto corria no meu pensamento, eu falava contigo e explicava-te toda a minha rua em que muito brinquei, orgulhosa que estava e feliz me sentia.
Ali e aqui fui e sou feliz.
Chorei finalmente Colares, no final do dia já deitada, contigo ao meu lado.