Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços
que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
A minha mulher, a minha Mary, adormece como se fecha a porta de um armário. Quantas vezes a contemplei com inveja? Enrosca o lindo corpo como se se instalasse num casulo, suspira, os olhos fecham-se e os lábios tomam a forma daquele sorriso sábio e vago dos antigos deuses gregos. Ela sorri toda a noite no seu sono e a respiração faz ronrom na garganta. Não ressona, ronrona como um gatarrão. Durante alguns momentos a sua temperatura sobe a tal ponto que a sinto irradiar calor junto de mim. Depois desce, e Mary como que se afasta. Não sei para onde. Ela diz que não sonha. Mas, no entanto, deve sonhar. O que sucede é que os sonhos não a perturbam, ou então perturbam-na de tal maneira que os esquece antes de acordar. Gosta de dormir, e o sono faz-lhe bem. Queria ser como ela. Luto contra o sono e desejo-o com ânsia.
Talvez, digo a mim próprio, isso seja devido ao facto de a minha Mary saber que viverá para sempre. Passará desta existência a outra com a mesma facilidade com que se passa do sono ao despertar. Todo o seu corpo o sabe com uma tal certeza que ela não pensa nisso, como não pensa em respirar. Assim tem tempo de dormir, de repousar, de cessar de existir por algum tempo.
in O inverno do nosso descontentamento, de John Steinbeck
A Margarida chegou a casa depois de mais um dia de escola. A Margarida tem 4 anos. A mãe como em todos os dias, perguntou: "Então filha como correu a escola?" a Margarida respondeu: "Correu bem mãe... Hoje a "Leonor grande" (que é a professora) disse-nos que a partir de hoje os meninos grandes podiam casar com os meninos grandes e as meninas grandes podiam casar com as meninas grandes... Não podiam mãe, sabias?... Não sei porquê... A minha Barbie Mosqueteira é casada com a Barbie Polegar..." É assim tão díficil? Obrigada Professora "Leonor grande" pela completa pedagogia.