A minha mulher, a minha Mary, adormece como se fecha a porta de um armário. Quantas vezes a contemplei com inveja? Enrosca o lindo corpo como se se instalasse num casulo, suspira, os olhos fecham-se e os lábios tomam a forma daquele sorriso sábio e vago dos antigos deuses gregos. Ela sorri toda a noite no seu sono e a respiração faz ronrom na garganta. Não ressona, ronrona como um gatarrão. Durante alguns momentos a sua temperatura sobe a tal ponto que a sinto irradiar calor junto de mim. Depois desce, e Mary como que se afasta. Não sei para onde. Ela diz que não sonha. Mas, no entanto, deve sonhar. O que sucede é que os sonhos não a perturbam, ou então perturbam-na de tal maneira que os esquece antes de acordar. Gosta de dormir, e o sono faz-lhe bem. Queria ser como ela. Luto contra o sono e desejo-o com ânsia.
Talvez, digo a mim próprio, isso seja devido ao facto de a minha Mary saber que viverá para sempre. Passará desta existência a outra com a mesma facilidade com que se passa do sono ao despertar. Todo o seu corpo o sabe com uma tal certeza que ela não pensa nisso, como não pensa em respirar. Assim tem tempo de dormir, de repousar, de cessar de existir por algum tempo.
in O inverno do nosso descontentamento, de John Steinbeck
domingo, 7 de fevereiro de 2010
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