domingo, 4 de julho de 2010

A Palavra



O mais certo é ser a palavra o melhor que se pôde arranjar, a tentativa sempre frustrada para exprimir isso a que, por palavra, chamamos pensamento.

In O Ano da Morte de Ricardo Reis

terça-feira, 29 de junho de 2010

Ausência




Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços

que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'

segunda-feira, 8 de março de 2010

As Mulheres


as mulheres andam na rua vestidas.

deitam-se. à noite antes disso despem-se.

nuas escrevem com os dedos

uma linguagem impenetrável.

lêem-se com um fósforo. às

vezes apagam-se. os lençóis ao

invés tornam a pele morena. a delas.

a nossa. a da vida. ao invés do

sol acordam de noite. quentes. amo

as mulheres.



poema de José-Alberto Marques in Estórias de Coisas

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Steinbeck

A minha mulher, a minha Mary, adormece como se fecha a porta de um armário. Quantas vezes a contemplei com inveja? Enrosca o lindo corpo como se se instalasse num casulo, suspira, os olhos fecham-se e os lábios tomam a forma daquele sorriso sábio e vago dos antigos deuses gregos. Ela sorri toda a noite no seu sono e a respiração faz ronrom na garganta. Não ressona, ronrona como um gatarrão. Durante alguns momentos a sua temperatura sobe a tal ponto que a sinto irradiar calor junto de mim. Depois desce, e Mary como que se afasta. Não sei para onde. Ela diz que não sonha. Mas, no entanto, deve sonhar. O que sucede é que os sonhos não a perturbam, ou então perturbam-na de tal maneira que os esquece antes de acordar. Gosta de dormir, e o sono faz-lhe bem. Queria ser como ela. Luto contra o sono e desejo-o com ânsia.

Talvez, digo a mim próprio, isso seja devido ao facto de a minha Mary saber que viverá para sempre. Passará desta existência a outra com a mesma facilidade com que se passa do sono ao despertar. Todo o seu corpo o sabe com uma tal certeza que ela não pensa nisso, como não pensa em respirar. Assim tem tempo de dormir, de repousar, de cessar de existir por algum tempo.

in O inverno do nosso descontentamento, de John Steinbeck

domingo, 10 de janeiro de 2010

Sabias mãe?...


A Margarida chegou a casa depois de mais um dia de escola. A Margarida tem 4 anos. A mãe como em todos os dias, perguntou: "Então filha como correu a escola?" a Margarida respondeu: "Correu bem mãe... Hoje a "Leonor grande" (que é a professora) disse-nos que a partir de hoje os meninos grandes podiam casar com os meninos grandes e as meninas grandes podiam casar com as meninas grandes... Não podiam mãe, sabias?... Não sei porquê... A minha Barbie Mosqueteira é casada com a Barbie Polegar..."
É assim tão díficil?
Obrigada Professora "Leonor grande" pela completa pedagogia.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Quando eu chorei Colares


Quando eu chorei Colares, já estava deitada, contigo ao meu lado.
Estive por lá ao fim de algum...muito tempo. Um final de férias magnífico em que me permiti olhar de novo para a rua em que muito brinquei, olhar o espaço em que me movi, voltar ao tempo em que cresci feliz, no tempo quente e na humidade fria da serra de Sintra e que envolve Colares. Estive por ali pouco tempo, o suficiente para notar todas as diferenças, poucas, ainda que evidentes. Olhei o portão por onde tantas vezes entrei e saí a pé ou de bicicleta, ora com risos e gargalhadas, ora com lágrimas e tristezas infantis das que parecem infinitas quando sentidas, mas tão efémeras quanto o que as originou.
E a minha tia Helena, a minha cuidadora, naquele instante, em que o meu olhar fixou o portão da casa, que já não me pertence, mas que será sempre minha, surgiu na minha cabeça, no mesmo instante em que o pensamento não pára e promove a associação triste de que, a ausência da minha casa com a vida que tinha durante a minha infância, é exactamente igual à ausência que tenho da minha tia na minha vida com a vida que ela própria tinha. Invadida que fui por tanta lembrança, incluindo a do dia em que despejei junto com a mana, o espólio da casa, e em seguida me convenci que fazia o que tinha de ser feito, da melhor forma que naquela altura podia fazer, por não reunir condições para mais, voltei ao carro e enquanto tudo isto corria no meu pensamento, eu falava contigo e explicava-te toda a minha rua em que muito brinquei, orgulhosa que estava e feliz me sentia.
Ali e aqui fui e sou feliz.
Chorei finalmente Colares, no final do dia já deitada, contigo ao meu lado.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

No meu sonho....

Nunca mais o teu olhar me invadiria o pensamento. Nunca mais te iria ver atenta a tudo o que dizia e ao que não dizia também. Nunca mais as tuas gargalhadas deitariam por terra todas as minha argumentações. E nunca, nunca mais, as tuas mãos me amariam o corpo, e me entrelaçariam a alma. Porque contigo era amor e eu sabia. A despedida. A certeza de um fim naquele instante. E a dor. A imensa dor dentro de mim.
Esta noite sonhei que morrias e a primeira coisa que fiz ao acordar foi dizer-te o quanto gosto de ti....